sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Sonhador

Junto ao povo sangrio
Longe do perjúrio e dor
Onde está o meu Brasil
De tanta paz e tanto amor

Já não ouço o canto mil
Do eterno sonhador
Do poeta que não viu
A semente que plantou

Nesses matos sou Gregório
Nesses dias sou Gonçalves
Nessa vida um oratório
Esperando um só milagre. (15.12.98) SP

Senhora Aparecida

Senhora, senhorita
Dona da casa
Cura-me a ferida
E os que feri nessa jornada.

Senhora, senhorita
Cuide de mim
Dê-me um prato de comida
Ofereço-me o teu sim.

Senhora, senhorita
Ofereça-me um café
Faça de minha vida
O que bem você quiser.

Senhora, senhorita
Já é hora, já vou indo
Obrigado, Aparecida
Vou contente, vou sorrindo.

Andorinha solitária

Leve, fumaças
Esvaem pelo ar
Uma visão embalsamada
Uma tristeza do olhar
Numa triste madrugada
Uma andorinha a chorar
Sem abrigo e congelada
Com esperança de mudar
Desse mundo de jogada
Sem o jogo do amar
Leve, fumaças
Esvaem pelo ar
Só não leve minhas palavras
E a andorinha a gorjear. (28.10.97) SP

Peru Embriagado

Abre a porta o cardeal
Entram ilustres urubus
Aos filhotes do pardal
Gavião que os seduz

Pombos voam bem trajados
Andorinhas fazem festa
O Rei Leão anunciado
Um papagaio, uma conversa

Há codornas desmaiando
bem-te-vi pedindo graças
O Rei Leão observando
A galinha que disfarça

Um peru embriagado
Não respeita o Rei Leão
Os fiéis tomem cuidado
Não sujeitem a pregação. (29.01.97) SP

João Ninguém

Tocam, os anjos, as trombetas
Pousa um santo em seu quintal
Diz com a voz meio ofegante:
- Seu pecado é banal.
Sem ter tempo, indagou
Perguntou-lhe a profissão
João, parado, ajoelhou
Respondeu: - Sou um ladrão
Não me queiras, oh! Senhor
Eu não tenho solução
Só mulher e cinco filhos
Os quais vivem sem razão
Novamente ofegante
Respondeu a seu João:
- Levantas, pobre homem
E receba a comunhão
Pois, aqui, ninguém dá jeito
Nem governo ou oração
Vamos embora dessa terra
Não sujeite a opressão
Ao meu lado estarás certo
Que terás uma missão
Governar o nosso mundo
Pois és tu a salvação. (17.01.97) SP

Macaúbas

Canta o galo na aurora
Brota o homem sertanejo
Macaúbas, terra amada
És aorta do meu peito

Teu colégio e tua gente
Em tuas praças e igrejas
Pra ti, cantam, Macaúbas
Suas canções e suas proezas

Teus riachos, são orquestras
Tua serra a rodeia
Tudo brilha em Macaúbas
Como o sol que nos clareia

És amada
És linda
És bela
És canção da realeza
A maestrina dessa terra (11.01.97) SP

Desabafo Nordestino

Pra que há vida, sem viver
Pra que sol, se não há luz
Pra que a terra, sem o ter
Pra que o homem se traduz.

Pra que há chuva, sem molhar
Pra que machado e lavrador
Pra que ladrão pra afanar
Se o nada aqui restou.

Pra que palavras e protestos
Pra que dinheiro, se não temos
Pra que ter filhos, sem afeto
Pra que igrejas, se não cremos.

Pra que os sonhos e delírios
Pra que há blusas, sem o frio
Pra que trabalhos nordestinos
Se é a vida um desafio.

Pra que fugir, sem ter pra onde
Pra que escola e professor
Pra que alunos, se há fome
Pra que o homem sem amor.

Pra todo povo, um aprendiz
Pra todo que, uma razão
Pra que ser livre no país
Se a liberdade é a prisão.

O quero de você

Passeando em baldados pensamentos
Flutuo sobre abismos e saudades
Sem razão
Sem por quê
Só lembranças
E o quero de você
Quero que me amas, como a amo
Quero que me queiras, como a quero
Quero ofuscar-me nos teus braços
Quero de você o quero. (08.96)

Contando "Os Dias"

Oh! Deus, nosso senhor
Diante dessas injurias
Eis aqui o meu clamor
Nossa vida está extinta
Nosso homem só tem dor
Nossas ruas não têm vida
Pois a vida é desamor
Capitalismo está vivo
Brutal e sem pudor
Clemência Oh! Meu Deus
A esse homem que brotou. (07.96)

Perdido pelas noites

É noite sem estrelas e luar
É noite...
É noite e vejo o nada se aflorar
É noite, é noite, é noite.

Do alto vejo o mundo entrelaçado
Vejo pessoas deturpadas e confusas
Vejo o tudo, vejo nada, vejo a noite...
Pois é noite, é noite, é noite.

Meu canto destoado se propaga
Ninguém me ouve
Ninguém me vê
Pois ... é noite, é noite, é noite

Nada é belo sem estrelas e luar
Tudo está perdido
Tudo está escuro
Pois... é noite, é noite, é noite. (08.07.95)

Revolta do nada

Revolta do nada

Sou ator de um filme inacabado
Sou a dor do menino abandonado
Um nordestino castigado
Pois aqui a gente paga pra nascer
Aqui, a gente paga pra morrer.
Então, pra que viver...
Se não podemos pagar
Se não podemos comprar
A liberdade,
E a  felicidade pra que viver...
Se tudo nos castiga
Se tudo nos injuria
É o pecado do viver.
É uma cena de terror.
É o medo de um ator.
Que só vê no amanhã a dor.

O amanhã

Na penumbra do meu olhar
Não vejo horizontes...
Só além. (05.96)

O solitário

Luz que paira ao meu redor
Pai e mãe, o meu viver
Vida e alma ao Deus maior
Sou o tudo
Sou o nada
Sou o só. 

(05.96)